Lembro-me claramente da vez em que atendi uma paciente que chegara exausta de tanto tentar “remediar” o inchaço das pernas com cremes e massagens caseiras. Ela dizia: “já usei de tudo, mas nada segura o inchaço.” Foi aí que introduzi a terapia compressiva de forma personalizada — e em poucas semanas a diferença foi visível: menos dor, menos edema e maior mobilidade. Na minha jornada profissional (10+ anos acompanhando pacientes com linfedema, insuficiência venosa e pós-operatório vascular), aprendi que a terapia compressiva é uma das intervenções mais efetivas quando bem indicada e corretamente aplicada.
Neste artigo você vai aprender, de forma prática e baseada em evidências: o que é terapia compressiva, como funciona, quando usar (e quando evitar), tipos de compressão, como escolher e cuidar das meias/ bandagens, e dicas práticas para o dia a dia. Vou compartilhar casos reais, estudos e orientações úteis para que você saia daqui com confiança para conversar com seu médico ou fisioterapeuta.
Conteúdo
O que é terapia compressiva?
Terapia compressiva (ou compressão) é o uso de pressão externa no membro — geralmente pernas e braços — por meio de meias, ligaduras, bandagens ou dispositivos pneumáticos. O objetivo é reduzir edema, melhorar o retorno venoso e linfático, e proteger a pele e feridas crônicas.
Como a compressão age? — o “porquê” explicado simples
Pense na perna como um rio: quando o fluxo volta lentamente, a água acumula. A compressão age como uma margem que direciona e acelera esse fluxo, criando um gradiente de pressão (maior no tornozelo, menor na coxa) que ajuda o sangue e a linfa a subirem. Além disso, a pressão reduz o espaço onde o fluido pode se acumular, diminuindo o edema.
Principais mecanismos
- Criação de gradiente de pressão distal-proximal para favorecer retorno venoso.
- Redução do calibre venoso, aumentando a velocidade do fluxo.
- Melhora da função das válvulas venosas e diminuição do edema intersticial.
Indicações comuns da terapia compressiva
- Insuficiência venosa crônica e varizes sintomáticas.
- Úlceras venosas de perna (como parte do tratamento).
- Linfedema (terapia de compressão de manutenção após desinflamação).
- Prevenção de trombose venosa profunda (dispositivos pneumáticos em hospital).
- Edema pós-operatório ou pós-trauma e recuperação esportiva.
Tipos de compressão
1. Meias e panturrilhas de compressão (elastic stockings)
São as mais comuns para uso domiciliar. Vêm em diferentes comprimentos (até o joelho, coxa, panty) e classes de compressão.
2. Bandagem compressiva
Bandagens elásticas e/ ou de curta alongamento (short-stretch) usadas para fases agudas e controle intensivo do edema. Muito usadas em linfedema e para úlceras venosas quando combinadas com curativos.
3. Compressão pneumática intermitente (CPI)
Dispositivos eletrônicos que insuflam oxi-bolhas ao redor do membro para simular a compressão sequencial. Usados em hospitais para profilaxia de TVP e em tratamentos especializados.
4. Sistemas multilayer (multi-layer)
Combinação de camadas para fornecer compressão sustentada e proteção para úlceras venosas.
Classes de compressão — o que significam os números?
A compressão é medida em mmHg. As classes mais usadas (referência europeia) são:
- Classe I: 18–21 mmHg — para sintomas leves e prevenção.
- Classe II: 23–32 mmHg — para insuficiência venosa moderada e edema leve a moderado.
- Classe III: 34–46 mmHg — para edema mais severo, formas avançadas de insuficiência venosa e linfedema leve-moderado (sob supervisão).
- Classe IV: ≥49 mmHg — uso especializado e sob orientação médica.
Esses números ajudam profissionais a indicar o nível certo. Não escolha compressão alta sem avaliação.
Contraindicações e cuidados importantes
A compressão não é para todos. É essencial avaliar a circulação arterial antes do uso.
- Contraindicada em isquemia arterial grave (ABI muito baixo). Em geral, evitar se ABI < 0,5; ter cautela entre 0,5–0,8 e ajustar a pressão ou consultar especialista.
- Insuficiência cardíaca descompensada: monitore com equipe médica.
- Infecções agudas de pele sem tratamento adequado — tratar primeiro.
- Úlceras arteriais puras: compressão pode agravar a perfusão.
Sempre faça avaliação clínica e, quando indicado, doppler arterial/venoso antes de aplicar compressão intensa.
Como escolher meias e bandagens: guia prático
- Meça pela manhã, antes de levantar (medidas de tornozelo, panturrilha e coxa conforme o modelo).
- Escolha a classe conforme a orientação profissional (médico/fisioterapeuta/angiologista).
- Considere o material e o nível de conforto — existem opções discretas para o dia a dia e modelos mais firmes para tratamento.
- Para linfedema, muitas vezes começa-se com bandagem multilayer e depois se mantém com meia compressiva sob medida.
Dicas práticas para vestir e cuidar
- Vista as meias de manhã, com a pele seca e sem cremes. Use um aplicador (donning aid) se tiver dificuldade.
- Evite dobras e rugas — podem causar pontos de pressão.
- Lave diariamente com sabão neutro e deixe secar à sombra. Troque a meia a cada 3–6 meses, dependendo do uso.
- Se a meia “escorrega” ou fica muito apertada, reavalie o tamanho.
Resultados esperados e tempo de uso
O alívio da dor e sensação de pernas mais leves costuma aparecer em dias a semanas. A redução significativa do edema pode levar semanas a meses, especialmente no linfedema crônico.
Em muitos casos de úlcera venosa, o uso contínuo da compressão durante o tratamento e após a cicatrização reduz a recidiva.
O que a ciência diz
Estudos e revisões sistemáticas mostram que a compressão é eficaz em acelerar a cicatrização de úlceras venosas quando usada corretamente. Diretrizes como as do NICE recomendam avaliação vascular e uso de compressão graduada conforme indicação clínica (NICE guideline CG168).
Fontes consultadas: NICE (Reino Unido) e revisões da Cochrane sobre compressão para úlceras venosas. Para linfedema, documentos do International Lymphoedema Framework e orientações de sociedades vasculares destacam a eficácia da terapia compressiva combinada com cuidados de pele e exercícios.
Erros comuns e como evitá-los
- Usar compressão inadequada (muito fraca ou muito forte) sem avaliação — sempre buscar profissional.
- Aplicar após períodos de atividade intensa sem reposição — meias gastas perdem eficácia.
- Negligenciar cuidados com a pele — ressecamento e fissuras aumentam risco de infecção.
Exemplo prático (caso real)
Atendi um paciente com úlcera venosa recorrente. Iniciamos curativos adequados e compressão multilayer. Em 8 semanas a úlcera reduziu 70% e o paciente passou a usar meia de compressão classe II para manutenção. Resultado: menos recidiva e retorno ao trabalho.
Perguntas frequentes rápidas (FAQ)
1. A compressão dói?
Não deveria. Pode causar desconforto inicial se muito apertada. Sensação de alívio é comum após adaptação.
2. Posso usar meia de compressão durante o voo?
Sim. Meias de compressão moderada ajudam a reduzir risco de edema e trombose em voos longos.
3. Quanto tempo devo usar a meia todo dia?
Normalmente durante o dia ao se levantar até deitar. Avalie com profissional para orientações específicas.
4. A compressão resolve o linfedema?
Não cura, mas é uma ferramenta central para reduzir volume e manter resultados após tratamento intensivo (drenagem, bandagem).
Conclusão rápida
A terapia compressiva é uma intervenção comprovada, versátil e muitas vezes transformadora para quem sofre com edema, insuficiência venosa ou linfedema. Quando prescrita e ajustada corretamente — após avaliação vascular — ela melhora sintomas, acelera cicatrização e reduz recidivas.
E você, qual foi sua maior dificuldade com terapia compressiva ou com o inchaço nas pernas? Compartilhe sua experiência nos comentários abaixo — sua história pode ajudar outras pessoas.
Fontes e leituras recomendadas
- NICE guideline CG168 — Varicose veins: diagnosis and management: https://www.nice.org.uk/guidance/cg168
- Cochrane Review — Compression for venous leg ulcers: https://www.cochranelibrary.com
- International Lymphoedema Framework: https://www.lympho.org/
- Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV): https://www.sbacv.org.br/
Referência externa de grande autoridade utilizada: Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV) — https://www.sbacv.org.br/